Exemplos de Vida reflete a beleza e a singeleza da alma feminina racionalista cristã, nos ensinamentos das nobres mulheres Maria Thomazia, Maria Cottas e Maria de Oliveira. Encontrei nestes espíritos exemplos que dizem muito a todas as mulheres ávidas por esclarecimento. Como mãe e eterna estudante desta doutrina, ao ler e transcrever cada letra de suas páginas, senti que cresci um pouco mais, e deixá-las em meu arquivo pessoal seria demais injusta para com todas, assim, publico seus exemplos e um pouco de suas biografias para quem desejar sentir a vibração e a ternura do amor existente em cada palavra. Maria de Fátima Almeida

ENTREVISTA DE MARIA DE MATTOS DO NASCIMENTO COTTAS

É filha de Luiz de Mattos e esposa de Antônio do Nascimento Cottas, o que já seria suficiente para recomendá-la como voz autorizada da Doutrina. Porém, antes de mais nada, impõe-se pelo seu valor pessoal, pois basta vê-la uma única vez transmitir uma comunicação de um Espírito de Luz, para nos convencermos que só uma mulher valorosa e digna seria capaz de desempenhar tal papel.
 
Conforme fizemos ver no nosso prefácio, procuramos observar o modo de viver de todos os que neste livro se manifestaram sobre o Racionalismo Cristão e só
depois de verificarmos que a pessoa os seguia é que procurávamos entrevistá-la.
 
A Maria de Mattos do Nascimento Cottas nunca fomos oficialmente apresentados. Porém, basta olhar-se para as suas filhas, cheias de saúde e vigor, educadas e disciplinadas, para reconhecer-se que só guiadas por mãe de princípios elevados é que assim podiam ser.

Quanto ao seu grau de cultura nada mais precisamos do que vê-la desempenhar a função de médium para nos convencermos tratar-se de uma senhora altamente instruída, pois é sabido que o Espírito só se pode manifestar em instrumento afim. Ora, para um Luiz de Mattos, Pinheiro Guedes, Oswaldo Cruz, Henrique de Castro, Pedro Lessa, e outros poderem transmitir os seus elevados e científicos ensinamentos, preciso é que o instrumento físico os conheça, a fim de haver a necessária compreensão por parte deste e, assim, fielmente interpretar o pensamento daqueles.

Pode pois a mulher brasileira orgulhar-se de, em seu seio, contar com um elemento do valor de Maria Mattos do Nascimento Cottas, cujas declarações, conforme se poderá verificar, revelam uma mulher de nítida compreensão da vida, capaz, portanto, de ser mãe e esposa exemplar.

A primeira pergunta que à nossa entrevistada fizemos foi a seguinte:
 
• É de grande dificuldade o desenvolvimento da mediunidade?

Desenvolvi a minha mediunidade muito facilmente, pois, esclarecida que era, fácil me foi perceber e diferençar o fluido do astral Superior do do inferior e docilmente receber as intuições dos mesmos. Estando este assunto bem desenvolvido nos capítulos XVIII, XIX e XX do livro “Espiritismo Racional e Científico Cristão”, 7.ª edição, recomendo-o aos investigadores. (atualmente o livro citado é o livro básico da Doutrina e chama-se; Racionalismo Cristão e está na 44ª. Edição, e os capítulos citados são 10, 11, e 12)

Em seguida lhe perguntamos:

• Qualquer pessoa pode servir de médium para qualquer espírito?

Sendo a mediunidade uma faculdade que acompanha o espírito desde o seu encarnar, todos nós somos médiuns, embora uns mais desenvolvidos do que outros. Assim sendo, qualquer pessoa que tenha a mediunidade desenvolvida, dentro dos Princípios Racionais e Científicos, está apta a receber qualquer espírito. O principal é saber como e porquê se pratica a mediunidade, que sendo exercida sem as garantias de uma forte corrente fluídica é um perigo, pois pode levar a criatura à obsessão (loucura).

• Desenvolveu a sua mediunidade como e por quê? Teve o seu pai, Luiz de Mattos, grande interferência para que a desenvolvesse?

Desenvolvi a minha mediunidade livre e espontaneamente, sem que para isso interferissem nem meu pai, que sempre respeitou o livre arbítrio dos seus filhos depois de maiores, nem tão pouco o meu marido.

Achando que a Doutrina precisava de médiuns dedicados e desinteressados, prontos sempre para a prática do bem, resolvi desenvolver-me, pedindo a meu marido que me colocasse à mesa para dito fim. O que não fiz em vida de meu pai, vim a fazer meses depois da sua desencarnação.

• Quais as qualidades que mais apreciava em Luiz de Mattos?

Dentre as muitas qualidades que possuía meu saudoso pai, a que eu mais apreciava era o seu valor. Dotado dum espírito forte nunca recuou diante do perigo e nunca fugiu ao inimigo.

• Qual o papel da mulher moderna na sociedade?

O principal papel da mulher moderna na sociedade é ser verdadeiramente mulher. Sendo esposa carinhosa e dedicada e mãe exemplar, imperará no lar como rainha.

• Deve a mulher permanecer no lar ou sair fora dele?

Não se deve afastar do lar, dele só devendo sair em último recurso, e por isso deve toda mulher ter uma profissão que possa exercer dentro de sua casa, e que a ponha a salvaguarda de necessidades, caso não tenha quem como pai, irmão ou marido, possa angariar o necessário.

A mulher deve ser preparada para agir livremente no comércio e na indústria concernentes ao seu sexo. Ela deve ser independente, mas desde que casa tudo deverá fazer em conformidade com o marido.
A mulher em plena liberdade, pelas ruas e em casas de comércio, está sempre sujeita às más irradiações de homens pouco sensatos e nada discretos, e para que ela possa sair ilesa desse meio é preciso que tenha uma sólida educação moral, conheça do que são capazes os homens e saiba se conduzir sempre com altivez, impondo-se ao respeito.
 
• Havendo hodiernamente, tanta infelicidade conjugal o que deve fazer a mulher para atenuar ou mesmo eliminar esta infelicidade?

Só a educação racional e científica eliminará a infelicidade conjugal. O casamento para ser feliz, é preciso que haja comunhão de ideias, o que é bastante difícil dada a desigualdade de inteligência de uns, a falta de raciocínio em outros e o espírito de imitação (principalmente por parte da mulher) e muitos.


Sou mulher, mas reconheço que nós, na maioria das vezes, somos as causadoras da nossa própria infelicidade, pelo nosso descuido e pelo pouco zelo aos nossos maridos. Uma esposa nunca deve concorrer para que o seu esposo abandone o lar, o que acontece muitas vezes por seu desleixo, falta de raciocínio e paciência, não desculpando, antes condenando, não evitando discussões, antes provocando-as.
 
A traição do homem quase sempre é motivada pela sua vida de desinteligências com a esposa, ou por falta de zelo da mesma.
 
Reconheço que há boas esposas, pacatas, que vivem na maior harmonia com os esposos (condescendendo em tudo com eles, mas sem raciocínio, vivendo apenas como autômatas) e que no entanto são traídas por eles, julgando-se então verdadeiras vítimas. Por quê? Porque, segundo me dizia meu pai, a mulher para ser boa esposa, precisa ser superior, vivendo com inteligência, mas nunca servindo apenas de instrumento de prazer ao homem ou de sua simples criada.
 
O lar de uma mulher inteligente e amiga de seu marido, deve ser um ninho de encantos e atrativos e não uma geladeira onde o homem penetrando, ao voltar do seu labutar quotidiano, sinta os efeitos de um ambiente sem calor e de uma esposa sem vida.
 
A traição da mulher é também por sua vez ocasionada pela falta de zelo do homem, seu marido. Ele, para ser um bom esposo deve mostrar que se interessa pela esposa, e ocupar no lar um lugar de respeito pela fidalguia do seu trato, pelo seu caráter e pela sua energia.
 
Os homens condescendentes, indulgentes até à covardia, que deixam as suas esposas em completa liberdade, dobrando-se a todos os seus caprichos, sendo assim governados por elas, não são bons esposos, são simplesmente ridículos. E quantos existem por esse mundo além!
 
São estes os mais traídos apesar de toda a sua “sublime” condescendência…
O bom esposo impera! Tem vontade. Reconhece os direitos da esposa, concorda com os seus sensatos desejos e discorda dos que o não são.
 
É carinhoso, indulgente, mas sempre homem, dominando pelo seu amor forte, ardente, mas sincero e elevado. Não é déspota, mas também não é covarde. Agindo assim, será sempre respeitado e dificilmente traído.
 
Assim sendo, só a educação eliminará a infelicidade conjugal, pois só ela fará desaparecer os caprichos e a falta de zelo na mulher e o despotismo ou a covardia no homem.

• Qual o papel da mulher esposa e da mulher mãe no momento atual que a humanidade vem atravessando, locupleto de dificuldades e desgraças?
A mulher desempenhará a primor o seu papel de esposa se procurar conhecer o gênio e as tendências se seu marido, e souber compreendê-lo, evitando discórdias e procurando modificá-lo nas suas más inclinações, o que conseguirá com persistência e calma. Não sendo nós nenhumas perfeições, devemos saber desculpar, sem o que não haverá equilíbrio na vida conjugal.
 
Ser mãe é o papel mais sublime, mas também mais árduo da mulher. Ser mãe é ser educadora de almas, cujo caráter aos seus cuidados está entregue, para uma vez formado, torná-las úteis à sociedade e à humanidade.

• Como educa atualmente as suas filhas?
 
Foi a antepenúltima pergunta que fizemos a D. Maria Cottas.

• Educo as minhas filhas racional e cientificamente, de acordo com o que explica a nossa Doutrina.
Nada de religiosidades. A verdade acima de tudo.
Procuro incutir-lhes no espírito o valor e faço questão absoluta que as minhas filhas tenham vontade e saibam dominar-se, pois reputo estas as únicas qualidades capazes de tornar a mulher vitoriosa neste lutar constante da vida terrena.
 
Na penúltima pergunta voltamos à personalidade de Luiz de Mattos, perguntando à sua filha se se dedicava muito à sua família.

Meu pai, respondeu-nos, era dedicadíssimo à família. Para seus filhos, irmãos e sobrinhos vivia, até fundar a Doutrina, à qual se entregou de corpo e alma, não vendo depois senão a sua explanação, o seu divulgamento, estudando e vivendo unicamente para ela.
 
Era muito severo para com os filhos, mas extremamente carinhoso e amigo. Os conselhos que nos dava eram sempre os mais sãos e elevados. Eu o admirava e respeitava estremecidamente.

• Por fim interrogamos: Deu-se consigo algum interessante fenômeno psíquico?
O mais interessante fenômeno psíquico que comigo se deu foi em vida de meu pai, quando, em minha casa, subitamente me encontrei atuada. Tendo sido chamado meu pai, recebi-o acintosamente, insultando-o e procurando agredi-lo. Fenômeno este que me demonstrou a mediunidade sensível que possuía e a necessidade que tinha de desenvolve-la. Mas, mesmo assim, não me quis desenvolver naquela época, vindo a fazê-lo dois anos mais tarde.
 
Outro fenômeno psíquico constatei, quando desencarnou minha mãe: Estava em minha casa fazendo as habituais irradiações, quando vi nítida mas rapidamente a minha progenitora, vindo a saber, no dia seguinte pela manhã, de sua desencarnação. Verifiquei então que tal aparição se tinha dado logo após a sua desencarnação.
 
Entrevista de Maria de Mattos do Nascimento Cottas
Por Bernardo Scheinkman
Fonte: Livro Como e Por que se tornou Racionalista, de Bernardo Scheinkman
1ª edição - Rio, Outubro, 1934
Typ. Baptista de Sousa - Rua da Misericórdia, 51,  Rio de Janeiro

Colaboração: Sr. Antão José Lopes da Luz Presidente da Casa Racionalista Seixal, Lisboa,Portugal.