Exemplos de Vida reflete a beleza e a singeleza da alma feminina racionalista cristã, nos ensinamentos das nobres mulheres Maria Thomazia, Maria Cottas e Maria de Oliveira. Encontrei nestes espíritos exemplos que dizem muito a todas as mulheres ávidas por esclarecimento. Como mãe e eterna estudante desta doutrina, ao ler e transcrever cada letra de suas páginas, senti que cresci um pouco mais, e deixá-las em meu arquivo pessoal seria demais injusta para com todas, assim, publico seus exemplos e um pouco de suas biografias para quem desejar sentir a vibração e a ternura do amor existente em cada palavra. Maria de Fátima Almeida

LUTA CONTRA A FOME E A MISÉRIA

Que iria eu fazer, agora, se estava privada de ganhar o indispensável para comer? Elevando o meu pensamento a Jesus, de repente tive a intuição: olhando para uma extensão de terreno contíguo a minha casa, raciocinei que se tivesse dinheiro para pagar a uns homens que me amanhassem esse pedaço de terra, com boas sementes e plantas eu seria capaz de ganhar a vida, vendendo hortaliças, flores e frutos!

Este plano que concebi, graças à Grande Luz, foi com energia, confiança e boa vontade realizado, ainda que com grandes sacrifícios.

Naquele tempo, uma senhora branca vista a trabalhar em serviços de campo, era tida como “quissanda”, (mulher de condenado) motivo por que todos os meus trabalhos no terreno eram efetuados de noite.

Como não dispunha de dinheiro suficiente para mandar proceder ao amanho do terreno, resolvi eu mesma, sem ajuda de ninguém e no período da noite, iniciar o trabalho, fazendo uma cerca para evitar o acesso de cabras, porcos e bois que, naquele tempo, vagavam pelas ruas de Luanda.

Numa luta indescritível quer moral, quer materialmente, suportei os maiores sofrimentos, enfrentando o mais rude e árduo trabalho.

Sem ajuda de ninguém, fiz a cerca, cavei, semeei e transplantei, sob o maior cansaço e com o corpo doendo, a área de terreno que concebi explorar.

A falta de meios, o acanhamento e a vergonha que sentia de pedir fosse o que fosse e a quem quer que fosse, obrigavam-me a uma alimentação bastante deficiente, incapaz de suprir as energias que despendia, e, portanto com prejuízo da própria saúde.

O abandono do lar por parte de meu marido e o constante assédio dos credores por dívidas que ele desvairadamente contraiu, davam motivo às pessoas das minhas relações para fazerem comentários menos lisonjeiros contra o meu marido, não sendo raro ouvir-se dizer que era preferível a morte, ao sofrimento por que eu passava.

Mas eu tinha uma filha que era todo o meu enlevo! Por ela, custasse o que custasse, teria de lutar e vencer, para poder criá-la.

Todas estas circunstâncias, aliadas aos conselhos de pessoas amigas e ainda às minhas intuições que me diziam que de futuro apenas teria de contar com o produto do meu modesto trabalho, levaram-me a tomar a resolução de consultar um advogado sobre um possível divórcio.

Acompanhada de meu irmão que, embora nunca me tivesse aconselhado abertamente, deixava transparecer o seu desejo de eu me divorciar, por haver testemunhado, melhor do que ninguém, o meu sofrimento, fui aconselhar-me com um advogado.

No cartório, depois de ter narrado ao advogado nua e crua de toda a minha vida e de tudo quanto se estava passando entre mim e meu marido, foi com o espanto que daquele jurisconsulto ouvimos, eu e o meu irmão, o seguinte: - “Minha senhora, o que acaba de revelar-me é inconcebível e deras me sensibilizou! É dever não só da Sociedade como, ainda, dos advogados, aconselhar, nos casos de desavença entre cônjuges, a reconciliação, mas, no seu caso, ficaria de mal com a minha consciência se adotasse tal critério. Através do tribunal e da minha própria banca, conheço o seu marido e sei que a sua situação, em consequência dos inqualificáveis desvairamentos, é bastante delicada quanto a inúmeras dívidas que contraiu.

Tal situação implica, a qualquer momento, a perda de todos os valores ou bens que o casal possua ou venha a possuir, a favor dos respectivos credores. Por isso, contrariamente ao que costumo aconselhar, sou de opinião que a Senhora D. Maria de Oliveira promova uma ação de divórcio, o mais breve possível, salvaguardando o modesto produto do seu trabalho presente e futuro, e libertando-se, ao mesmo tempo, da escravidão em que vive!

Eu, naquele tempo, tinha muitas pessoas amigas que, conhecedoras da vida difícil e amarga que levava, estava ansiosos pelo meu divórcio para me poderem prestar auxílio sem o perigo do meu marido ou dos credores levarem tudo quanto me tivessem emprestado, intuição que, vinha recebendo, há bastante tempo.

Ponderando os prós e os contras a respeito da resolução que vinha pensando tomar quanto ao meu possível divórcio, optei pela única solução que tinha a fazer: divorciar-me.

Escrevi a meu marido comunicando-lhe o que havia decidido e pedindo a sua concordância, tendo-se ele recusado, terminantemente, sem qualquer fundamento lógico ou humano.

Inúmeras vezes lhe escrevi, bem como o advogado. A mim era sempre a recusa insistente, como resposta; ao advogado, nem sequer respondia.

O divórcio correu os seus trâmites, tendo o tribunal resolvido a meu favor, por falta de comparecimento de meu marido.

Quero aqui agradecer ao meu irmão todo o seu valioso auxílio, não só pelo dinheiro que abonou para eu fazer face às despesas com o divórcio, mas ainda pela maneira amiga como o fez, pois o seu maior desejo era ver-me livre de responsabilidades que pudessem influenciar, negativamente, no ânimo das pessoas que pretendiam auxiliar-me.

Os únicos maiores de que dispunha para ganhar a vida, eram a minha horta e uma máquina de costura que meu irmão me comprou a prestações. O produto do meu trabalho resultava, agora, das hortaliças, flores, frutos e, ainda, da execução de bordados e costura.

As minhas despesas continuavam a ser efetuadas à base de uma rígida economia, com exceção da alimentação de minha filha, visto que eu com qualquer coisa passava.

Através de todas estas vicissitudes, algo de grande e poderosos me auxiliava! Não poucas vezes, interrogava-me a mim mesma: como podia eu, sem me alimentar suficientemente e entregando-me a um trabalho extenuante, (no período de dia, costura e bordados, no da noite, rega e amanhã do terreno da minha horta! Como podia eu, dizia, cheia de sofrimentos, despender tanta energia, sem desfalecer! Com o meu pensamento ligado a Jesus, agradecia-lhe tamanho auxílio.

Algumas vezes sucedeu não ter em casa nenhum recurso para comprar o indispensável para a alimentação ou artigos que necessitava para o meu trabalho.

Fonte: Livro Como Cheguei à Verdade, de Maria de Oliveira